Um sonho mórbido
Você tropeça nos meus tornozelos do outro lado da sala. Entre nós, uma multidão de fantasmas. Não esperava lhe ver no lugar onde velo meus mortos. De repente, em mim, doem novamente tumores que há muito tenho tratado - insistentes, grandes e, até então, latentes. No centro de sua cara, os olhos que tanto odiei.
Não te procurei em todos os lugares e pessoas, rezando para não te encontrar. Queria tanto lembrar, como se uma parte da minha alma nunca tivesse se enroscado em você quando me abraçou. Dentre todas as pessoas estranhas, me pergunto o porquê de você ter sido a única cuja mão eu quis segurar como que para dizer: vejam bem, é meu; posso levar esse amor para passear comigo pelas ruas e calçadas desse mundo. Experimentei sentir fogo nas veias quando me tirou do meu sentimento.
No entanto, aqui, uma infinitude de tempo depois, nos encontramos para nos velarmos. Você, do outro lado da sala, ainda me atropela. A notícia de sua chegada me vem através de uma visão translúcida, como se eu passasse a observar o ambiente de um outro lado do tecido do tempo.
Suas roupas pretas te fazem parecer mais alto e você ainda parece cansado, tanta vida e tanta história na forma que sua boca se abre e sorri. Meu peito se infla e não sei a diferença entre isso e chorar.
Rosas brancas ao redor do caixão de madeira maciça, seu cheiro por todo o ar. Não se pode saber ao certo o que habita o interior sem se aproximar. Sentada na lateral da sala, parede oposta à entrada, não vejo a face que jaz.
Levanto-me da cadeira de madeira ruidosa e o sol que refrata pelos vitrais das janelas brinca com formas sobre as pessoas ao entorno. Tão engraçadas, engomadas e sem rostos. Aproximo-me do caixão, sem conseguir ver claramente. Há uma inconsciência que o cerca, você e o “nós”, há tanto já sepultado, me cerceiam os pensamentos, tomando as rédeas desse sonho.
O tempo do inconsciente é outro. A ideia não é minha, mas me surge com certa originalidade no cenário aplicado. Com esse pensamento, abro os olhos na minha cama. O teto branco me recebe e as memórias de todas as coisas que me fazem sentir sua falta veem à tona. Quero anotar todas para nunca esquecer e, quem sabe, poder desocupá-las da mente.
Sinto vontade de te procurar, mas conforme a consciência gradualmente desperta, percebo: há muito te tirei da minha vida e pelo que parece uma eternidade, velarei o que poderíamos ter sido.
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